• Tânia Bischoff

A Aula como experiência, mas do quê?

Sou professora na Academia desde 03/03/1990, no fatídico dia em que o Presidente Fernando Collor de Mello lançou seu plano econômico, ou seja, confiscou todo o dinheiro circulante no Brasil. Certamente, todos lembram onde estavam neste dia, assim como no dia 11 de setembro de 2001.

Mas não é sobre estar aqui ou ali em momentos da história contemporânea que escrevo. Foi somente um devaneio típico do pensamento em rede, que representa a não-linearidade do viver tão marcante nos dias de hoje.


Estamos em 2019, ou seja, tenho 29 anos de vivência como professora na Academia. É uma marca identitária. Lembro do primeiro dia de aula na PUC-RS, diante de uma turma de 66 alunos do curso de Administração com Ênfase em Análise de Sistemas. Psicóloga e consultora organizacional, eu não tinha a menor ideia do que era ser professora, mas, sim, tinha ideia do que era ser aluna. Olhava para a turma e pensava: o que tenho para dar? Para ensinar? Como vou passar para eles os conteúdos O pensamento que vinha a mente era: respira, respira e respira. Você tem experiência.


Assim, os anos foram se passando. Mais experiências, estudos em pós, mestrado, doutorado, diferentes formações, trabalho... muito trabalho. A constante paixão por educação, tecnologia, trabalho e subjetividade, permitiu com que eu vivenciasse as mudanças advindas com a tecnologia e consequentemente outros modos de dar aula, ou melhor, de ser professor: sala de aula invertida, o aluno agora estudante, o professor aos poucos migrando para uma posição de facilitador e, como pano de fundo, o mundo conectado a tudo e a todos.


Neste momento, me vem à mente o livro Roland Barthes "Aula - Texto de sua aula inaugural no Collége de France", pronunciada no dia 07 de janeiro de 1977. Li este livro no início da década de 90. Procurei-o na minha biblioteca e não o encontrei. Fui para o Google e me deparei com diversas resenhas. Selecionei a de Eliomar Rodrigues Rocha, em que escreve sobre o discurso da inaugural da Aula: “a linguagem é o objeto em que se inscreve o poder. Todo o discurso, desde os proferidos pela escola, ou pelo Estado, na forma de suas várias instituições, até mesmo o que constitui as opiniões correntes, ou mesmo uma canção, encarrega-se de repetir a linguagem até o momento em que os sentidos das palavras nos pareçam naturais, como se a linguagem existisse antes mesmo do surgimento das sociedades e de suas construções de poder. É a palavra repetida, fora de qualquer encantamento ou magia, que Barthes chama de estereótipo: os signos só existem na medida em que são reconhecidos. A aula, a meu ver, é a demonstração da tentativa de subversão do discurso. É um convite ao jogo. Que jogo? Ora da caça, ora da fuga do estereótipo, ora das trapaças do narrador.”

A resenha de Eliomar sobre a Aula de Barthes leva ao questionamento:


O que é uma Aula hoje?

Imersos na linguagem oral, escrita, corporal, midiática, digital e algorítmica, tendo a internet com a grande “rede onipresente” no espaço atravessando e permeando a relação professor-estudante, a Aula não é mais um espaço de troca em um lugar confinado a um só tipo de linguagem em que o poder se inscreve.


A Aula, hoje, é uma experiência expandida em várias possibilidades de produção de práticas de poder, que se dá pelo conhecimento e relações das mais diversas que produzem aprendizagens de regras e de modelos de diferenças. É um jogo de forças atravessado por questões de raça, gênero, ideologias, gerações, políticas, sonhos e, no meio disso tudo, talvez uma ponta a que me detenho: então, qual o propósito de estar e fazer aula?


Não existe um propósito único e, sim, uma quase multidão de propósitos exclusivo a cada ator envolvido que, juntos, produzem relações de poder, de conhecimento, de produção de afetos, um impacta no outro.


É uma trama complexa, emaranhada de possibilidades que leva a cada ator, do seu jeito, viver o momento Aula do que lhe é possível, produzindo a potência de um bom encontro.

Na Aula, ouso dizer que experenciamos e produzimos propósitos atravessados por desejos conscientes, inconscientes, produzidos pelo fora ou pelo dentro da gente, seja mídia, redes digitais, redes afetivas, trabalho, sonhos, projetos, percepções, expectativas, em suma, de tudo aquilo que nos possibilita ser o que se é.


A Aula não passa por nós e, sim, atravessa a gente e nos faz diferente...

O propósito implica em exercitar cotidianamente a lucidez do vivenciar tudo o que se é no momento e assumir o que é seu, o que é do outro, o que é da relação e com isso fazer da vida, bonita.


Viver o propósito é um estado da arte em constante mutação. 


[1] BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1988. Resenha de Eliomar Rodrigues-Rocha - eliomarocha@yahoo.com.br - capturado em 20/04/2019 no link: https://www.webartigos.com/artigos/aula-roland-barthes/1520

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