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  • Tânia Bischoff

Se as três línguas universais fossem ensinadas de outro jeito?

Conversando durante o jantar com meu filho sobre os algoritmos e a possibilidade de universalizar a interação e comunicação humana em escala mundial, fui surpreendida com o seu questionamento: “você conhece as três línguas universais?” Senti que ali tinha uma “pegadinha” e, meio desconfiada, disse que “não”.


Ele respondeu: “matemática, física e química. São conceitos que operam da mesma forma independente do clima, região, idiomas, pessoas e cultura em que vivem”. Continuou... “os conceitos de físicas são os mesmos em qualquer continente, um mais um é igual a dois em qualquer lugar do mundo, H2O é igual” e, por aí, foi desmembrando seus conceitos. E para completar, referiu, “talvez um dia o algoritmo seja a quarta linguagem universal”.


Recolhi-me em minha existência e fiquei a pensar sobre como tinha aprendido matemática, física e química, linguagens das quais entendo o básico, mesmo tendo clareza de que, ao dirigir, uso matemática e física, e química uso muito ao cozinhar, ou seja, convivo sistematicamente com estas três línguas.


No dia seguinte, em determinado momento da sala de aula, perguntei aos estudantes do quarto semestre de Administração quais eram as três línguas universais. Inglês, expressão facial, emoções... foi máximo que conseguiram relacionar. Ficaram com a cara de interrogação, esperando a resposta.

Escrevi no quadro: física, química e matemática. No início, tentaram pensar de que física estava abordando e, meio que em dúvida, não entenderam porque aquelas três palavras estavam ali escritas, pois não tinham nada a ver com línguas universais. Uma das estudantes comentou: “Eu não sei nenhuma delas, não aprendi direito”. Grande engano, ela sabe muito das três, só que não sabe que elas estão no seu dia-a-dia desde o momento que acorda e lava o rosto...


Olhei para o quadro, li as três palavras listadas e de imediato questionei: “Por que, em muitas das escolas brasileiras, estas línguas foram tratadas como matérias estanques, independentes e explicadas de forma tão abstrata?” Talvez porque o pano de fundo da aprendizagem fosse educar pessoas para serem trabalhadoras, dentro de uma dinâmica positivista, utilitarista e compartimentalizada.


Então o E se... E se... E se... veio à mente quase como catarse a qual tento dar uma forma com este texto.

Como teria sido ou poderia ser uma escola que usa estas “três línguas” para formar pensamento, ensinar o sujeito a ler e escrever a compreender o seu mundo? Como seria bom cursar o ensino fundamental e médio articulando a harmonia da física, da matemática e da química em nosso cotidiano?


Cada conteúdo intercalado com o outro e aos poucos sendo conectado com outros conteúdos afins das áreas: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias, como indica o Enem... Conhecimentos atravessados por uma humanidade que preza a sociedade inclusiva, justa, em que as diferenças se complementam, os fenômenos que acontecem se explicam, as coisas são como são porque foram sendo desenvolvidas para terem esse formato. Os “neoentendidos”, ou supostos intelectuais, teriam seu discurso esvaziado ao afirmarem para quê aprendemos matemática, física e química se não vamos usar no dia-a-dia? 





E o Se... continuava aos borbotões enquanto tentava focar nos estudantes, quando, na realidade, o desejo era abrir estas questões para eles, mas certamente não entenderiam nada, porque naquele momento dois fluxos de aprendizagem e troca aconteciam – o da interação com eles e da interação com o meu eu interno... 


E o Se se fez. Quantas vezes, em sala de aula, os Ses acontecem na mente de cada um nós, enquanto estamos ali interagindo e o que fizemos com os Ses? Compartilhamos silenciosamente via Whats, desviamos o pensamento e focamos no que um ou outro comunica verbalmente. Desviamos do Se porque ele, às vezes, é doloroso e exige uma ação diferente da esperada, por medo, comodidade ou porque a gente decide que fará depois o devaneio Se, que acaba ficando perdido no meio de tantos outros Ses que a gente nem se dá conta.


Caro leitor, são muito Ses? Sei que são diversos, mas esses Ses envolvem o desvio do pensamento, da atenção, do olhar para o lado, do sentir o cheiro da chuva molhada, da dor no pescoço, da coceira no braço, na música ao fundo, do frio ou calor da sala, do interesse ou desinteresse do interlocutor... São esses Ses que fazem o sentido, tiram a gente do piloto automático, nos humanizam, mas que a gente não quer ou às vezes nem se dá o tempo afetivo para prestar atenção.

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